sexta-feira, setembro 08, 2006

a camioneta do tio zé



às nove horas em ponto lá estava,

todos já sabiam.

corriam apressados com as sacolas nas mãos

e o sol a escorreres-lhes pelos rostos alegres.

outros esperavam já em frente ao imenso carvalho

onde era o ponto de encontro.

entravam pela porta da frente da pequena camioneta,

quase velha,

não fosse isso passar despercebido.

engoliam alguns poucos degraus e espalhavam-se em sorrisos

e cantigas pelos assentos com estórias de encantar.

seguiam rumo à escola da manhã, como lhe chamavam

alguns.

ainda guardo as palavras da joana e da marisa,

que sem querer me ensinavam coisas que já não sabia.

os abraços do antónio e a atenção do andré.

e como havia tanto a aprender nos gestos perdidos

que por vezes o meu olhar abrangia!

haviamos esquecido a escola das paredes fechadas

e eu estava imerso na aprendizagem de todas as horas.

a escola estava logo à entrada do dia, no sorriso do tio Zé

e na sua camioneta apaixonada, estava nos beijos e abraços

da manhã e até nos cadernos que não vieram e ficaram em casa.

nesta escola, tínhamos esquecido a escola.

e às nove da manhã, a cada dia que passava,

lá estavam todos sem saber ainda que o amor é um bom professor

e que a camioneta do tio Zé nunca deixaria de ser escola.


Daterra (por uma pedagogia do amor)

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